(Texto para um concurso da revista piauí, tal qual o em "Os arpejos de mamãe...". A frase proposta desse eu digo ao final, para que não se condicione a caçá-la.)
“Som, ei, som”. Um estampido oco sai da caixa de som mais à direita. “Som, ei, ei. Marquinho, você escuta daí?”. Microfonia, caretas, nova microfonia.
Era um leilão dessa vez. Leilãozinho na verdade, e de mentirinha para ser mais exato. Marcos – o Marquinho ao qual se referiu o senhor que faria as vezes de leiloeiro, seu pai – cuidava da mesa de som, que emprestara para a festinha no colégio da irmã. Certamente esse seria o pior negócio do mês. O aluguel da aparelhagem, por ordem da mãe, teria preço tão simbólico que realmente parecia um empréstimo; um empréstimo a troco de fatias de bolo, refrigerante e salgadinhos. “Queria ser caçula”, repetia mentalmente sempre que se via refém das vontades da coisinha-linda-do-papai. Papai este agora bravo ao microfone: “Marquinho, dá pra ouvir ou não dá, porr...”. Percebendo a tempo o xingamento descabido para a faixa etária local, ensaiou uma mudança brusca: “...rawl, rau, raô, a-ô, som. Ei, som”. Baixou os olhos abanando a cabeça com um riso contido enquanto recebia a resposta afirmativa do filho, que erguia os dois polegares para o alto e sorria largo, apreciando a gafe disfarçada com maestria. “Aprende, filhão”, sussurrou o pai; não mais disfarçava o sorriso, mostrando dentição igual a de Marcos. Toda a excitação do pai o fazia lembrar um amigo que imitava muito bem um leiloeiro de gado de um canal na tv; nada elogioso, fazia mais por chacota.
Na verdade, ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários e tinha lá seus motivos. Contara para Marcos certa vez a sua versão de um ocorrido um tanto constrangedor - coisa besta, mas que teve repercussão na imprensa local e quase intervenção da polícia. O pai e o tio do rapaz estiveram envolvidos com o lado criminoso da história, que combinava intrigas pessoais, relógios coreanos e um pai de santo mal-intencionado. Os acontecimentos eram confusos, mas ficava clara a não inocência dos dois. Mesmo assim, o amigo tendenciosamente os defendia e...
A lembrança lhe foi quebrada pela tosca imagem de uma menina tentando matar outra lhe puxando os cabelos. Apressou-se tomado pelo susto de reconhecer a própria irmã na cabeça que balançava de um lado para o outro, guiada pelas mãos vorazes da amiguinha. Num tabefe rápido – ao estilo “pedala” – e com uma puxadinha de cabelo que ergueu a cabeça da agressora, conseguiu a distração que queria para arrancar a pequenina vítima do perigo. Por sorte, nenhuma mãe percebeu aquele bravo irmão em ação; se muito, viram apenas o rapaz da mesa de som com pressa carregando um pacote todo assanhado no colo.
Passado o susto, a paz; criança se distrai fácil. Após o arremate do último item, o pai de Marcos, ainda empolgado com o próprio desempenho, apontando para o filho e sem se desfazer da voz empostada, sentenciou o início da festinha: “Solta o som Dj!”. Ao se virar para sair de cena, tropeçou no cabo do microfone e proferiu uma segunda sentença: “Caralh...”. Essa não deu para disfarçar. Todo mundo percebeu.
“Caralhamba” não existe.
(A frase era "ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários".)
terça-feira, 1 de julho de 2008
Caralhamba
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Os arpejos de mamãe...
Durante o ano passado, a revista piauí promoveu em cada uma da suas edições um concurso literário do tipo "encaixe a frase". Ela propunha uma frase um bocadinho inusitada e os participantes se aventuravam em montar um textinho bonitinho e cheirosinho que a contivesse. Frases do tipo "Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!", "O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio" e “Não vou tolerar este tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo!" foram algumas das propostas ao longo da ano. No site da revista eles destacavam 5 textos (1º ao 5º lugar); o 1º colocado tinha seu texto publicado na revista (glória máxima, irmãos!). Participei de dois concursos, o de frase "Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários" e o "Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio". Não, não atingi a glória máxima - nem a mínima (o 5º lugar). É, a vida é dura. Mas o importante é ser feliz e... tá, a vida é dura.
Da frase segunda o que me saiu foi isso daqui:
Ida
Minha mãe completou 40 anos e fez uma baita festa. Nesse dia, ouvi de muitas bocas embriagadas – que claramente já haviam também ultrapassado a cota de quatro décadas – o famoso mote que prega como verdadeiro início da vida o dobro da minha idade.
Motivada por um não sei o quê, que até pensei ser o álcool – não era, aquilo reapareceu mesmo depois da ressaca do aniversário –, agora ela age diferente: quadragenária, passou a praticar Yoga e a freqüentar academia, desmantelou a própria rotina, quer cursar arquitetura e aprender a tocar um instrumento musical – comprou um teclado. Desfez-se do namorado antigo e arranjou um outro. Mas já se desfez deste último e inicia algo parecido com uma coleção, pela qual já passaram o professor de música e o jardineiro.
Não há clareza em minha motivação, mas sinto que não minto nestas palavras. Sim, os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio, bem como as roupas de ginástica, os passeios no jardim, os vestidinhos curtos, os gemidos e sussurros, os restos de vômito à borda do sanitário; pois tudo isso são grãos de um pedregulho maior.
Mamãe no terraço saúda o sol. Eu me despeço. No bilhete que fica, minto para que ela siga sem culpa a vida que mal começou.